segunda-feira, 27 de abril de 2015

Passagem Mitologia-Filosofia

As duas teorias que tentam explicar a passagem entre mitologia e filosofia são a teoria de Frederick Hegel e John Burnet e a teoria de Werner Jaeger e F.M. Conford.
Hegel e Burnet defendem a ruptura entre mitologia e filosofia. Segundo Hegel a filosofia nasce a partir da criação das polis e da democracia, pois é quando os cidadãos tem o dever de pensar por si próprios para poderem argumentar sobre assuntos de interesse político. É a partir dessa necessidade de conhecimento que os homens começam a refletir sobre o que é a verdade, passam a questionar a mitologia e percebem que há inúmeras falhas nos mitos. Por isso, segundo Hegel, há uma clara ruptura entre mitologia e filosofia. Para Burnet a ruptura entre mitologia e filosofia se deve também a uma clara diferença entre ambas. Para ele a filosofia busca o conhecimento da verdade absoluta e atemporal de forma que aquilo definido como verdade não possa ser questionado, pois apresenta a resposta a todos os questionamentos. Já a mitologia busca uma resposta vaga para as perguntas do mundo uma vez que não esclarece completamente a verdade. A mitologia também utiliza de histórias do passado para explicar o atual e, assim, se diferencia por completo da filosofia.

Já Jaeger e Conford defendem a continuidade entre mitologia e filosofia. Para eles a filosofia nasceu do mito e o próprio mito tem filosofia em suas ideias porque o homem, ao criar os mitos para explicar o mundo, está tentando compreende-lo e, portanto, está buscando conhecimento filosófico que é basicamente buscar a verdade. A diferença porém é que os homens que criavam os mitos como explicação estavam também usando dos recursos e do conhecimento que eles tinham na época. Para Jaeger a mitologia ao colocar, por exemplo, os deuses em forma humana busca entender melhor o mundo, os seres humanos começam a entender o homem como o criador de todo o universo. A partir dessa compreensão eles buscam entender como os deuses agiam baseados neles mesmos e, assim, começaram a elaborar teorias de como tudo funcionava, dando início ao pensamento filosófico. Já Conford afirma que a filosofia segue as bases da mitologia, segue o mesmo padrão que a mitologia utiliza para explicar o mundo com a diferença de buscar uma verdade mais concreta e direta e, por isso, a filosofia é fruto da mitologia.

Sócrates

Para Sócrates “só sei que nada sei” resume a forma como encara a vida e o mundo ao seu redor. Para ele o primeiro passo para se alcançar a verdade é admitir que não se sabe nada, pois Sócrates percebe o quanto os homens de Atenas estavam presos as suas próprias filosofias de vida e a suas próprias maneiras de ver a vida de tal modo que não conseguiam perceber o quanto tais “conhecimentos” eram errôneos. O fato de admitir que não sabe nada leva Sócrates sempre a uma mesma pergunta: então o que é a verdade? E é através dessa pergunta que Sócrates percebe o erro dos homens em simplesmente aceitar algo como verdade, é dai que surge a maiêutica e todo o método Socrático, através de um constante questionamento sobre aquilo que se considera verdade é que Sócrates consegue verdadeiramente enxergar os erros em tais teorias e, a partir dai, buscar encontrar a verdade.
A frase “conheça-te a ti mesmo” está diretamente ligada à frase “só sei que nada sei”. “Conheça-te a ti mesmo” faz referência ao fato de que o homem deve aceitar sua ignorância perante as coisas do mundo para que possa buscar a “verdadeira verdade”. Também segundo a teoria de Sócrates todo homem é conhecedor da verdade, apenas precisa relembrá-la e, portanto, ao conhecer a si mesmo o homem consegue atingir a verdade.
Também a busca pela verdade deve ser incessante de forma que o homem, mesmo após atingir a verdade, continue procurando-a, pois apenas assim poderá saber que uma certa coisa é de fato a verdade. Ao atingir a verdade e continuar procurando por ela irá voltar sempre ao mesmo ponto e comprová-la. Portanto a busca pela verdade deve ser um ciclo incessante, porém finito.
Para Sócrates não é possível ensinar a verdade, pois ela já está dentro de todo homem, faz parte de sua natureza, nós apenas a esquecemos e precisamos relembrá-la. Sócrates ensinava seus discípulos a pensarem por si mesmos para atingir a verdade sem a necessidade que ele lhes dissesse o que era a tal. Porque como a verdade está dentro de cada homem é impossível que ela venha do mundo externo. Ele levantava questionamentos sobre as verdades de cada um de modo a ironiza-las para mostrar a eles que a verdade nem sempre é o que se pensa, o questionamento constante de modo a levar a uma reflexão para que se atinja a verdade é o que chamamos de método socrático.

Parmênides de Eleia

A Via da Verdade é a parte do poema escrito por Parmênides que expressa a existência do ser. A Via da Verdade fala que o Ser é e não pode não ser porque se o Ser deixa de ser em algum momento ele se torna não Ser e não mais é Ser. A Via da Verdade deixa claro que o Ser é e por isso pode ser estudado e que, para entender o Ser, é necessário que utilizemos do logos e não dos sentidos já que estes não são Ser e sim não Ser e, por isso, não são reais e não podem ser utilizados para a compreensão do Ser. Fala também que o logos é Ser e, portanto, pode e deve ser utilizado para a compreensão do mesmo.
Já a Via da Opinião é a parte do poema de Parmênides que fala sobre os sentidos e o motivo de não poderem ser utilizados para o entendimento do Ser. Os sentidos são não Ser e, sendo não Ser, não são reais. Por não serem reais são apenas obstáculos ao entendimento do que é real e não podem ser utilizados para compreender o que é. Os sentidos interpretam o Ser e a interpretação do Ser feita por estes não traduz corretamente o Ser, pois esses não o são. Os sentidos nos dizem que o não Ser existe ao nos mostrarem que existe morte, porém a morte não existe porque a morte é não vida e sendo não vida deixa de ser vida. Quando a morte não é vida se torna não Ser e o não Ser não é real e é impossível.
A relação entre a Via da Verdade e a Via da Opinião é justamente o fato de o Ser ser e não poder não ser. A Via da Verdade diz sobre o Ser e a via da opinião diz sobre como o não Ser não pode ser e não existe. Ao dizer que o não Ser não existe, pois não é Ser, podemos perceber a relação entre Ser e não Ser, pois se não existisse o Ser não haveria como saber que não existe não Ser.

A filosofia de Parmênides, ao definir que o Ser é e não pode não ser, define também que ele é uno, imóvel, pleno, indivisível e eterno porque, se o Ser é e apenas ele é Ser, ele é único, pois se existir outro Ser este será o não Ser do primeiro Ser e o não Ser é impossível; é imóvel porque se se transformasse não seria mais Ser e sim não Ser; é pleno porque não pode haver algo que seja não Ser; é indivisível porque se se dividisse uma das partes não seria mais Ser e sim não Ser da outra; e eterno porque se houvesse surgido em algum momento ou se crescesse ou morresse deixaria de ser, pois haveria se transformado.
Tais critérios para o Ser levaram aos filósofos que o sucederam a tentarem conciliar o mundo como conhecemos com o Ser como deve ser, pois percebemos o mundo a todo momento se transformando e, ao fazer isso, deixaria de ser.
Podemos tirar como conclusão que o Ser pode ser mesmo mudando em relação aos sentidos, pois o Ser não muda sua essência e se o Ser se transforma à percepção dos sentidos não deixa de ser, pois os sentidos não são e não o explicam corretamente. Portanto as mudanças no mundo que conseguimos perceber são fruto da percepção dos sentidos e não são reais, como não são reais o Ser que vemos em mudança não muda realmente, permanece a sua essência e ele continua sendo Ser independente das mudanças que podemos perceber.